"Os Primeiros Soldados": filme com Johnny Massaro narra a chegada da Aids no ES

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"Os Primeiros Soldados": filme com Johnny Massaro narra a chegada da Aids no ES

A história se passa em Vitória no começo dos anos 1980, e é uma homenagem à memória daqueles que enfrentaram a doença e seus estigmas em seu princípio

Marcelo Pereira

Redação Folha Vitória


Foto: Felipe Amarelo/Pique-Bandeira Produção
Johnny Massaro é o biológo Suzano que, no início dos anos 80, volta da Europa para Vitória e testemunha a chegada da epidemia de Aids no Espírito Santo 

*Aviso: esta matéria pode conter spoilers

"É o filme que eu queria e precisava ter visto na minha adolescência. Estava 'saindo do armário', na metade dos anos 90, com a minha geração ainda sob o impacto da existência do vírus HIV. Os personagens são as pessoas que eu queria ter conhecido. Infelizmente, a maioria delas se foi e não ficou a mínima lembrança do que enfrentaram", define o diretor e roteirista Rodrigo de Oliveira, 37 anos, ao falar de "Os Primeiros Soldados" (Brasil, 2020, 107 minutos), seu premiado longa-metragem capixaba que chega aos cinemas em circuito nacional nesta quinta-feira (07). 

A estreia acontece em salas de São Paulo, Salvador, Curitiba, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. No Espírito Santo, o filme, que foi premiado nos festivais internacionais na Alemanha e na Índia e nos festivais de Tiradentes (MG) e do Rio, entra em cartaz no Cine Metrópolis, no campus da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória, com sessões às 20h.  

O longa acompanha membros da comunidade LGBTQIAP+ que buscam formas de resistir à epidemia de Aids. A história se passa em Vitória no começo dos anos 1980, e é uma homenagem à memória daqueles que enfrentaram a doença e seus estigmas em seu princípio.

Na história, Suzano (Johnny Massaro) é um estudante de biologia que acaba de voltar dos estudos no exterior. Ele sabe que algo desconhecido está começando a afetar seu corpo. Ele quer entender melhor a doença e buscar uma cura, ao mesmo tempo que tenta proteger sua irmã Maura (Clara Choveaux) e seu sobrinho Muriel (Alex Bonini) dos impactos do que está por vir. 

Foto: Felipe Amarelo/Pique-Bandeira Produção
Renata Carvalho, em seu primeiro trabalho no cinema, interpreta a transexual Rose, uma das artistas da fictícia boate Genet, instalada na Escadaria Maria Ortiz

O desespero com a falta de informações sobre o vírus e seu futuro incerto acabará por aproximar Suzano da performer transexual Rose (Renata Carvalho) e do estudante de cinema Humberto (Vitor Camilo), ambos vivendo com o vírus.

Para realizar "Os Primeiros Soldados", o diretor precisou fazer uma pesquisa vasta em relação sobre a chegada do vírus desconhecido no Espírito Santo. E não foi fácil.

"Registros sobre a nova doença eu encontrei a partir de 1985. Os primeiros relatos são de dois, três anos antes. A partir daí, nesse hiato sem informações, é que resolvi concentrar a história. Entrevistando pessoas que estiveram na linha de frente, matérias de jornais da época, descobri que, sim, já havia gente morrendo de Aids no Espírito Santo", relembra. 
Foto: Felipe Amarelo/Pique-Bandeira Produção
O jovem Alex Bonini é Muriel, sobrinho de Suzano, curioso por entender o que está causando melancolia no tio

"Essas pessoas sequer viraram estatística. E virar número é o grande medo para quem é minoria. Nem isso eles conseguiram. Quis então dar voz e fazer emergir essas histórias. Daí a ideia do filme: tratar desse momento que está invisível não só no cinema, mas na ciência, como na sociedade também", reforça. O desejo dele foi dar voz e vez às pessoas que enfrentaram uma doença totalmente desconhecida, que sequer nome tinha.

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Ele optou por uma abordagem que, na sua opinião, virou clichê nos filmes feitos até agora sobre a doença. O diretor afirma que, os filmes que abordam o tema, neste período dos anos 80, em geral são sobre pessoas que morrem de AIDS — e que sempre trazem também o momento da transmissão do vírus que, na maioria das vezes, é uma culpabilização do sexo.

“Eu queria escapar disso. A ideia é que o filme tivesse, sim, várias cenas de transmissão, mas em outra ordem, como a transmissão do conhecimento daquela doença. Hoje nós falamos de pessoas que vivem com HIV porque é possível, por meio dos tratamentos disponíveis, afastar esse fantasma da mortalidade que tanto se associou ao vírus. Mas lá no começo da epidemia as pessoas já viviam com HIV sim, mesmo que o fim estivesse no horizonte. A maior descoberta do filme foi elogiar essa vida, a celebração possível para corpos que estavam sim doentes, mas que insistiam em sonhar, em amar, em buscar uma saída, precária que fosse”, diferencia. 

ASSISTA AO TRAILER DE "OS PRIMEIROS SOLDADOS"

O diretor destaca também o trabalho de um elenco LGBTQIAP+, que, seguindo o espírito do filme, trabalhou em comunidade, e o resultado, para ele, “foi mágico”.

"O conceito sempre foi que o filme seria todo LGBTQIAP+, com gays interpretando gays, trans interpretando trans, no conceito de que o filme é de uma comunidade feito por essa comunidade. O elenco foi pautado nessa contribuição específica para se conectar a uma existência particular nessa comunidade que é tão grande e tão vasta", completou.

ATORES FIZERAM PREPARAÇÃO CONVIVENDO ENTRE SI ANTES DAS FILMAGENS

Johnny Massaro, Clara Choveaux e o estreante Alex Bonini (que no ano anterior colhia café no sítio da família em Governador Lindenbergh) viveram como uma família, num apartamento no Rio de Janeiro. "A ideia era alimentar relações verdadeiras, de real pertencimento, para que quando as filmagens começassem tudo fosse o mais natural possível", explica.

Foto: Felipe Amarelo/Pique-Bandeira Produção
Clara Choveaux é Maura, irmã do biólogo Suzano, sempre disposta a estar do lado dele e enfrentar preconceitos

Massaro, Vitor Camilo e Renata Carvalho realmente conviveram num sítio em Domingos Martins. “Johnny foi morar no sítio onde seu personagem se isola, e lá recebeu Renata e Vitor, que fazem Rose e Humberto, exatamente como no filme, antes da equipe chegar. Johnny perdeu peso, Renata perdeu peso, Vitor aprendeu a operar a câmera, tudo com esse objetivo lindo de estarem habitados por dentro por estes personagens. Esta entrega está impressa em cada fotograma do filme”, elogia.

Foto: Felipe Amarelo/Pique-Bandeira Produção
Vitor Camilo para interpretar o cinegrafista Humberto aprendeu a manejar câmeras

Recriar a cidade de Vitória do começo dos anos 80 foi um desafio e tanto para a produção, que contava com um orçamento distante do ideal de um filme de época. "Mais do que reproduzir era enxergar onde ainda era 1983. Vitória tem essa particularidade: numa mesma rua, você tem um edifício histórico de mais de 100 anos convivendo com um empreendimento inaugurado recentemente. Essa busca por esses espaços foi bastante prazerosa. Por a gente não ter uma visibilidade grande desses lugares no audiovisual, ou seja, foram poucos captados, pouco filmados na época, foi possível a gente recriar esses lugares com licença poética e memória afetiva", explica.

Foto: Felipe Amarelo/Pique-Bandeira Produção
A fictícia boate gay Genet foi instalada no centenário Hotel Cidade Alta, na Escadaria Maria Ortiz

Assim, a fictícia boate gay Genet, que no filme está na escadaria Maria Ortiz, no Centro histórico, foi recriada nas dependências do centenário Hotel Cidade Alta. "É nossa homenagem e evocação à boate Querelle, que ficava no Centro de Vitória, e depois deu origem à boate Eros, na região do Parque Moscoso, um dos points históricos da noite gay", reforça.

E expandiram para além de Vitória nessas locações. O posto de saúde em que Maura tenta saber notícias do irmão Suzano, que acabou de falecer, quando os médicos sequer querem chegar perto do corpo com medo do contágio da tal doença desconhecida, fica no Hospital Colônia Doutor Pedro Fontes, em Itaenga, Cariacica, tratando população em geral e os pacientes de hanseníase. "Essa cena foi tocante, feita num local que remete a uma outra doença que também maltrata com estigma e preconceito", relembra.

O filme "Os Primeiros Soldados" foi feito com recursos obtidos através do edital da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) em parceria com o FSA (Fundo Setorial Audiovisual). 

Para o diretor, o Espírito Santo, comparado com o eixo Rio-São Paulo, mais prósperos e com maior tradição de produção de cinema, leva vantagem por contar com uma política cultural constante de apoio. 

"Existe uma possibilidade real hoje no Espírito Santo de realizar cinema e cinema autoral por conta da continuidade dos programas de financiamento público. Isto não é tão regular como nos estados vizinhos maiores. Trabalhamos com muito pouco dinheiro em relação aos patamares nacionais de financiamento. Isso ainda precisa ser melhorado e é uma luta da classe audiovisual capixaba para que nós tenhamos mais financiamentos e mais filmes sendo feitos", acredita. 

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"Se era difícil imaginar uma história assim para o cinema capixaba, que sempre foi combalido e tão periférico, nos últimos 15 anos temos honrado muito essas pessoas que vieram antes da gente, esses cineastas que estão trabalhando aqui desde os anos 60 e existem muitos artistas capixabas interessantes.  Sentimos orgulho de 'Os Primeiros Soldados' ser o longa capixaba mais bem sucedido da história, mas a gente torce para que ele não seja o único e nem o último. O cinema capixaba tem muita história para contar e eu estou ansioso para acompanhar e contar essas histórias", avalia. 

Preconceito com o HIV permanece, diz diretor

Além de documentar uma época, o diretor quer que seu filme leve as pessoas a refletir sobre a situação atual, no Brasil de 2022. "Ainda temos preconceito para superar", afirma, citando também as questões ligadas à homofobia e transfobia, ainda reinantes no cotidiano nacional.

"Eu entendi que eu era gay na semana que o cantor Renato Russo morreu, em outubro de 1996. Na minha visão de adolescente, ao mesmo tempo em que tomava consciência da minha sexualidade, eu tinha consciência de que o amor que queria desfrutar poderia me levar a morte. Ainda bem que essa escrita mudou mas o estigma da doença permanece. No processo do filme, conversei com pessoas que convivem com HIV e ainda o diagnóstico é muito aterrorizante. Esse estigma precisa ser superado. Na boca do fascismo que assola o Brasil, é preciso devolver esse tema para a sociedade, atualizá-lo, e enfrentá-lo, porque a AIDS é ainda uma questão do presente. A cada 15 minutos, uma pessoa é infectada pelo vírus no Brasil, e ainda morrem perto de 11 mil pessoas por ano no país por conta da AIDS”, alerta.

Foto: Felipe Amarelo/Pique-Bandeira Produção
A personagem Rose é uma homenagem às mulheres trans que acolheram os primeiros infectados por HIV

A saída, citando os personagens que enfrentam a doença unidos, é viver em espírito de comunidade. "A personagem da Rose é praticamente uma homenagem às trans que, naquele primeiro momento da epidemia, foram as que acolheram as pessoas doentes, abriram seus espaços, suas casas para receber quem estava infectado, se colocaram na linha de frente contra o preconceito, formando grupos, formando relações. Não há saída fora da criação de uma comunidade solidária real e verdadeiramente inclusiva, que abrace as demandas de cada uma das letras representadas pelo LGBTQIAP+ e, sobretudo, não existe caminho fora da política e do ativismo. O que Suzano, Rose, Humberto e a comunidade que se forma entorno deles fazem é o esboço de um movimento político em defesa da vida e da dignidade. Isso vale hoje mais do que nunca,” conclui.

Foto: Felipe Amarelo/Pique-Bandeira Produção
Rodrigo de Oliveira no set de filmagens de "Os Primeiros Soldados": financiamento público precisa ser contínuo para que mais longas sejam feitos no Espírito Santo

Sobre o diretor

Rodrigo de Oliveira é diretor, roteirista e montador, nascido em Volta Redonda (RJ) em 1985, e radicado no Espírito Santo desde 2001. Vencedor do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro pelo documentário “Todos os Paulos do Mundo" (co-dirigido por Gustavo Ribeiro, 2018), dirigiu ainda os longas-metragens de ficção “As Horas Vulgares” (co-dirigido por Vitor Graize, 2011), e “Teobaldo Morto, Romeu Exilado” (2015). Lançou também os curtas-metragens “Eclipse Solar” (vencedor do Prêmio Aquisição Canal Brasil, 2016), “Ano Passado Eu Morri” (2017) e “Os Mais Amados” (2019). “Os Primeiros Soldados” é sua segunda direção solo de longa-metragem.

Serviço:

Os Primeiros Soldados (Brasil, 2022, 107 minutos). Drama.
Roteiro e direção: Rodrigo de Oliveira. 
Fotografia: Lucas Barbi.
Elenco: Renata Carvalho, Johnny Massaro, Clara Choveaux, Alex Bonini Muller, João Vitor Camilo Azeredo, Higor Campagnaro
Sinopse: em 1983, o jovem biólogo brasileiro Suzano tenta sobreviver à primeira onda da epidemia de AIDS. O desespero diante da falta de informação e do futuro incerto aproxima Suzano da transexual Rose e do videomaker Humberto, igualmente doentes.
Estreia: nesta quinta-feira (07), com sessões diariamente às 20h.
Onde: Cine Metrópolis, campus da Ufes, Avenida Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória.
Ingresso: R$ 16 (inteira) e R$ 8 (meia). Estudantes de graduação da UFES têm entrada subsidiada mediante apresentação da carteira estudantil ou comprovante de matrícula e documento com foto.
Pagamento: dinheiro e PIX (27 99950-5061)
Informações:  (27) 4009-2376 (8h às 18h)

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