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As muitas faces de Gabeira no documentário de Moacyr Góes

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Entretenimento

As muitas faces de Gabeira no documentário de Moacyr Góes

Teatro, cinema, Moacyr Góes tem sido multimídia, assinando filmes e montagens de teatro

Tem gente reclamando que Gabeira, o documentário de Moacyr Góes, que estreou na quinta (23), faz parte de uma hipotética campanha de seu biografado, Fernando Gabeira, para algum cargo político em 2018. "Bobagem, o Gabeira não precisa do filme para ser candidato ao que quer que seja. Tem sempre partidos batendo à porta dele, pedindo pelo seu retorno à política tradicional. Ele é que resiste", diz o diretor. E Góes acrescenta que precisou de um ano inteiro para convencer Gabeira a se deixar filmar/biografar.

Não é bem uma biografia - "Fernando é muito fechado e reticente a ficar falando de intimidades. O filme é sobre sua trajetória e seu pensamento. Como ele vê o Brasil". Góes conta essas coisas numa entrevista por telefone, do Rio. O próprio Gabeira está no interior da Bahia, sem telefone, gravando o programa de TV. Como fala bastante no filme, não diria na entrevista mais do que já está na tela.

Teatro, cinema, Moacyr Góes tem sido multimídia, assinando filmes e montagens de teatro. Anos atrás, Gabeira surpreendeu-o com um convite. Quando foi candidato a prefeito do Rio, pediu a Moacyr que fizesse sua campanha. "Você está pedindo para a pessoa errada. Não tenho nenhuma experiência disso." Pois era justamente pela inexperiência que Gabeira o queria. A campanha foi um sucesso. Virou um 'case' - Gabeira foi para o segundo turno e, mesmo não tendo vencido, aumentou sua projeção. Quase no final de 2015, Moacyr Góes iniciou seu assalto à fortaleza de Gabeira, cobrando-lhe um filme. Ganhou o aval no segundo semestre de 2016, com uma condição: "O filme é seu. Não quero saber de nada".

Góes gravou as entrevistas em setembro e outubro do ano passado, depois passou um ano montando. Um documentário tradicional - uma longa entrevista com Gabeira, depoimentos de diversas pessoas (Caetano Veloso, Ferreira Gullar, etc.), material de arquivo. Alguns críticos reclamam, sempre eles - Góes fez um filme tradicional sobre um personagem transgressor. "Foi consciente. Em nenhum momento, visualizei esse filme como um exercício de linguagem sobre um personagem que tem sido transgressor. O importante, para mim, é expor o pensamento do Fernando. Seguindo sua trajetória, acompanhando seu trabalho e conversando com ele, pude ver como ele reflete sobre a história do Brasil, tendo participado dela."

Às vezes, Gabeira chega a ser exasperante, pelo absoluto autocontrole com que se expressa. Fala calma, mansa, um certo didatismo. "Os raros arroubos que ele tem são físicos, o discurso é sempre esse." Gabeira criou uma persona - um personagem de si mesmo? "Não creio, ele é assim mesmo. E o que me atrai nele é essa retidão entre o que acredita e o que faz", agora é Moacyr Góes refletindo. Foi o que tentou, e conseguiu, colocar no filme. Dar conta das muitas faces de Gabeira não é coisa fácil. Mineiro, ele veio do interior para o Rio. Tirando o exílio, passou mais de 50 dos seus 77 anos como carioca.

Integrou a luta armada contra a ditadura, participou do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, foi exilado. Voltou e, com uma célebre sunga de crochê, foi a sensação do verão de 1980, num Brasil em fase de abertura. Escreveu um livro que virou filme - O Que É Isso, Companheiro? -, no qual refletiu sobre tudo. Militou nas questões ambientais, criou o Partido Verde. Não foge de nenhum assunto - do bolivarianismo petista ao arrependimento por não haver denunciado a repressão à homossexualidade na Cuba de Fidel. Independente, acostumou-se a desagradar a esquerda e a direita. O filme tem um subtítulo - Não Nasci para a Vida Doméstica. "O 'doméstica' aí é ambíguo. Fernando não nasceu para ser domesticado", explica Góes. Seu filme é sobre isso.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.