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Venezuelanos começam a retomar a vida em SP

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Venezuelanos começam a retomar a vida em SP

Venezuelanos refugiados, que chegaram a São Paulo na primeira semana de abril, na fase 1 da operação humanitária do Exército de transporte de imigrantes da fronteira de Roraima, já têm a oportunidade de recomeçar a vida na capital. Do grupo de 30 da Missão Paz, no Glicério, região central, que acolhe 120 imigrantes de 20 nacionalidades, pelo menos três já estão trabalhando. Outros dez venezuelanos chegaram na última sexta-feira, dia 4, ao abrigo, na fase 2 da operação.

"Eu vivia em Pacaraima", conta Isaid Moisés Pérez, de 23 anos, venezuelano que conseguiu uma vaga de trabalho em um restaurante peruano do Itaim. Com a filha Ishailys, de 4 meses, e a mulher, Rosa, de 18 anos, também venezuelanas, explicou que trabalhou em uma fábrica de calçados em Puerto Ordaz e na estatal de mineração CVG Minerven, de El Callao, departamento (Estado) de Bolívar, antes de emigrar.

O rapaz chegou ao Brasil pela fronteira com Roraima quando tinha 19 anos, em busca de trabalho, porque a situação econômica de seu país estava se deteriorando. "Vim para o Brasil para trabalhar e ajudar minha família. Estão na Venezuela", disse. Com o aumento no movimento de fuga dos venezuelanos para Boa Vista, a capital de Roraima, autoridades brasileiras abriram a porta para interiorização e vinda ao Sudeste.

Jornada

A jornada de trabalho de Pérez em São Paulo é puxada. Ele sai do abrigo pela manhã, toma um ônibus no bairro do Glicério e outro no Terminal da Praça da Bandeira, início da Avenida 9 de Julho. O expediente no restaurante como ajudante de cozinha vai das 10h30 às 15h30 e, depois, das 18h30 às 22h30. Tem um dia de folga por semana. "Isaid está indo bem. Ele está aqui há duas semanas", disse Yesica Palomino, que dirige o bar.

Para meter-se com ceviches, causas e piscos, Isaid contou com um empurrãozinho de um amigo. O trabalho foi repassado pelo venezuelano Robert Dias, de 37 anos, também imigrante. Ex-morador no departamento de Maturín, Estado de Monagas, e também abrigado na Missão Paz, Robert foi selecionado para a vaga de auxiliar de cozinha.

Na quinta-feira, o venezuelano contou que, por não entender nada de cozinha e achar que não se adaptaria à função, indicou o colega refugiado. Pérez aceitou na hora. "Estou esperando por outra vaga", contou Dias, ao lado do compatriota e acompanhado pela mulher, Saray, de 30 anos, e pela filha, Isabela, de 4 meses. Ele chegou a São Paulo no mesmo grupo conduzido pelo Exército.

Dias afirma que em Boa Vista "está havendo xenofobia" (rejeição aos imigrantes) - na realidade, as condições sociais se deterioraram e a governadora chegou a solicitar o fechamento da fronteira. Com parentes no Uruguai, Dias planejava seguir para a capital, Montevidéu, ou para a cidade de Rivera, na fronteira com a brasileira Santana do Livramento (RS). Mas o casal mudou de ideia e preferiu ficar em São Paulo.

Os planos deles são de trabalhar no comércio de roupas ou na construção civil. Dias admite que precisa também se empenhar para aprender português. "Quero trabalhar para fazer cursos e estudar a língua", diz ele, em espanhol, auxiliado pelo coordenador do abrigo, padre Paolo Parisi.

Barreira

"É preciso superar a barreira da língua", explica Parisi, na Casa do Imigrante. O local é um anexo da Igreja e normalmente acolhe 110 estrangeiros. Segundo o religioso, o abrigo tem ainda outros dois venezuelanos que já estão trabalhando, uma mulher, em uma confeitaria, e um homem, que conseguiu vaga em loja no comércio da Rua 25 de Março, também na região central.

Mostrando uma área do pátio interno da Missão Paz, Parisi conta que já tem projeto aprovado na Prefeitura para a construção de mais um anexo que deverá ser destinado para as famílias de imigrantes. "Agora vamos batalhar para conseguir o dinheiro para a construção dessa parte", relata. Nas acomodações atuais, os imigrantes homens ficam separados da ala das mulheres.

Na sexta-feira, a Missão do Glicério recebeu mais dez venezuelanos. São refugiados de um grupo de 60 transportado para São Paulo pelo Exército. O trabalho federal tem apoio da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), da Organização Internacional de Migração (OIM) e do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). De acordo com a ONU/Brasil, na primeira fase da operação conjunta para atender a refugiados da Venezuela, em 5 e 6 de abril, foram transportados 265 venezuelanos. Para São Paulo, vieram 199.

Na semana passada, mais 230 imigrantes, que optaram por tentar a vida no Brasil e estavam em Roraima, foram transportados pelo voo especial da Força Aérea Brasileira.

Recrutamento

A rotina da Missão Paz é intensa também com gente de outras nacionalidades. Em uma das salas dos anexos da Igreja Nossa Senhora da Paz, no Glicério, analistas de Recursos Humanos e representantes de empresas de São Paulo buscam talentos entre os imigrantes e refugiados.

"Analisamos 40 pessoas, selecionamos 12 e queremos contratar 10, em dois grupos de cinco", contou Mayura Okura, da empresa B2Blue, que trabalha com clientes como AmBev e Pão de Açúcar, na quinta-feira. "Encontramos aqui um engenheiro de ciências da computação", disse a recrutadora no fim da tarde, ao encerrar as entrevistas com um grupo de imigrantes de Angola, Congo e Haiti.

"Já contratamos cinco pessoas em uma outra vez", lembrou Mayura. "Foi uma ótima experiência porque são pessoas com muito interesse em avançar", emendou. "Queremos também identificar aqueles que podem tornar-se líderes no trabalho."

Desta vez, Mayura procurava operadores de prensa e gente para trabalhar com reciclagem de fábrica. Segundo o padre Paolo Parisi, coordenador do serviço de apoio aos imigrantes e refugiados da Missão Paz, nos últimos quatro meses, pelo menos 33 empregadores contrataram 130 pessoas com a ajuda nos técnicos e voluntários. Ele explica que o processo de encaminhamento dos imigrantes ao trabalho inclui uma palestra intercultural, quando os trabalhadores recebem informações culturais brasileiras e da legislação trabalhista do País.

De 2012 ao ano passado, foram mais de 14 mil participantes de palestras interculturais. De janeiro a abril deste ano, 355. Os dados desse trabalho mostram que o pico do movimento ocorreu em 2014, principalmente com a chegada dos haitianos.

Naquele ano, foram 2.739 contratados por 816 empresas e 4.996 pessoas participaram de palestras interculturais. As tabelas mostram ainda que, em 2017, houve 355 contratações por 68 empresas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.