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Gente Capixaba: frutos do crack de Novo Horizonte, em Cariacica

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Gente Capixaba: frutos do crack de Novo Horizonte, em Cariacica

Esse é a segunda publicação da série Gente Capixaba, que percorre os municípios da Grande Vitória ouvindo histórias de gente que faz a história das nossas cidades e Estado.

“Eles não são meus filhos, não, são meus sobrinhos. Apenas me chamam de mãe porque eu cuido deles. A mãe é viciada em crack, entende? ” – Explica Carol, uma jovem de corpo alongado, pele negra, cabelos cacheados com as pontas loiras e uma voz doce. Ainda tem 15 anos e é mãe de três, mesmo sem ter sido uma menina “para frente”, como muitos falam sobre quem torna-se mãe ainda na adolescência. Ela nunca engravidou nem deu à luz a alguma criança. Amanda, Estela e Bruno, que vivem pendurados em seus braços e pernas, são frutos do vício em crack de sua irmã, Edith, com um senhor que, sempre que a via drogada, aproveitava da situação, deixando mais do que simples rastros pelo caminho. Ele deixava vidas inocentes na porta da família de Carol, em Novo Horizonte, Cariacica.

A casa onde vivem é bem simples, com apenas dois quartos para sete pessoas – quando ela está completa – ou seis – quando Edith está pelas ruas, onde frequentemente fica por semanas –. A renda é bem abaixo do mínimo. Atualmente, eles sobrevivem apenas com a ajuda da avó aposentada, que apoia a família da forma como é possível. Isso porque os pais de Carol, não diferente de tantos brasileiros, encontram-se desempregados. Por sorte, as três crianças contam com o apoio da Obra Social Gabriel Delanne, onde passam todo o dia e conseguem realizar três refeições básicas. Neste momento, a família não reclama, apenas agradece. Principalmente, Carol, que mesmo com tão pouca idade, já se sente responsável pelas crianças.

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Junto com o nascer do sol o seu dia começa. Primeiro, ela acorda Bruno, que se encontra aninhado na mesma cama de solteiro que ela porque não consegue dormir sem o cheiro da mãe. Em seguida, desperta as outras meninas, que dividem a cama de casal com os avós. O destino é a instituição social do bairro. Ao retornar, o descanso não é uma opção para a adolescente, que ainda ajuda a mãe na limpeza da casa após o furacão das três crianças. Os afazeres só são interrompidos quando o dia já chega a metade e Carol tem que ir para a escola. Ela é tão cheia de obrigações que é custoso lembrar que ainda cursa a oitava série.

Neste momento, ela deixa de ser mãe, tia ou filha para ser apenas a Carol que também tem amigos e deveres de casa. Durante as pouco mais de quatro horas que passa na escola – com exceção de quando é liberada mais cedo porque um professor não foi – ela possui um tempo só dela, mas, que, infelizmente, mal sabe administrar. Sua cabeça já está condicionada a preocupar-se com as crianças. Estão bem? Alimentaram-se? Sentem saudades?

O espanto não é incomum para quem conhece a história. A única que não entende a reação de todos é a própria adolescente, que responde com serenidade sobre o fato: “Acho normal, não vejo diferença”. Isso porque, para ela, a sua rotina também segue toda a normalidade que uma jovem de 15 anos deve ter.

Ao voltar da escola, pouco depois das 17 horas, o seu destino, quando o seu pai não pode ir, é buscar os pequenos que estavam na Obra Social. Ela grita o nome de uma, corre atrás de outra que chora por conta da coceira no couro cabeludo, até que, após um pequeno cansaço, consegue reuni-los e seguir para casa. Pendura Bruno em sua cintura, que, com dois anos, diverte-se com a aventura; do outro lado coloca a pequena Estela, de apenas três, mas, que nunca consegue esconder a tristeza e o medo que sente do mundo; e, no chão, como se fosse independente, vai Amanda, a mais velha, de quatro anos, e que possui uma energia de tirar o fôlego de qualquer um.

Chegando em casa, as crianças não se satisfazem e ainda querem brincar. E, de longe, Carol até parece novamente uma adolescente. Tenta pegar a boneca que Estela está agarrada enquanto, inocentemente, ri da situação. Pela primeira vez é possível enxergar brilho e tranquilidade em seu rosto. Será que ela sabe disso? Possivelmente, não, pois logo o Bruno se pendura em suas pernas pedindo o colo da mãe, e, assim, ela se prepara para finalizar a noite, pois amanhã o dia começa bem cedo de novo. Porque sua única certeza é a de que tem três filhos para cuidar junto com seus pais, mas, que amanhã pode mudar, caso a irmã chegue com uma nova vida inocente em seus braços que já nascerá rotulada pelo vício do crack.

* Os nomes foram alterados para resguardar a identidade das personagens.