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Vitória 466 anos: do amor pelas ilhas gregas ao amor pela ilha de Vitória

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Geral

Vitória 466 anos: do amor pelas ilhas gregas ao amor pela ilha de Vitória

A comunidade helênica tem presença em muitos pontos de Vitória que alguns moradores da ilha jamais imaginariam, como na estátua de Iemanjá em Camburi e na Cruz do Papa. Conheça a história dessa comunidade em Vitória

Pelos quatro cantos da cidade, inúmeras são as maravilhas que atraem e contagiam. E foi assim, por conta da beleza de suas praias, de sua geografia privilegiada, e, principalmente, por conta das oportunidades de trabalho que vários gregos chegaram ao Estado nas décadas de 1950 e 1960.

Deixando para trás a grave crise que assolava o país e os resquícios da Segunda Guerra Mundial, muitos deles escolheram Vitória como sua nova casa. Por aqui, formaram uma comunidade sólida e começaram a trabalhar na construção do Porto de Tubarão, como profissionais liberais e no comércio - abrindo lojas no Centro de Vitória.

Dentre esses imigrantes, um membro da marinha mercante grega, mas que no Brasil se tornaria artista plástico, começou a se destacar: Ioannis Zavoudakis.

Talvez assim, somente pelo nome, a identificação por grande parte da população seja mais difícil. No entanto, é possível dizer que a história do grego e da cidade estejam entrelaçadas hoje em dia.

Grande parte dos maiores - e mais famosos - monumentos de Vitória foram construídos por Zavoudakis. O mais famoso deles é a Cruz Reverente, mais conhecida como Cruz do Papa, localizada na Enseada do Suá e construída em 1991 para a visita do Papa João Paulo II a Vitória.

Além da Cruz, a famosa estátua de Yemanjá, situada na Praia de Camburi; o Monumento à Grécia e globos terrestres, da Praça dos Namorados; e o monumento do Centenário da Abolição, localizado em frente a Rodoviária de Vitória; também são criações do artista.

A chegada

Órfão de pai e mãe por conta da Segunda Guerra, Ioannis Zavoudakis chegou sozinho a Vitória em 1964, após um curto período em São Paulo. Dois anos depois deixou o país a trabalho e retornou definitivamente em 1973, já fixando residência em Vitória.

"Trabalhei por muito tempo na marinha mercante, mas quis sair da Grécia por conta dos problemas causados pela guerra. O Brasil foi uma das nações que mais me chamou atenção. Conheci o país através do filme Orfeu Negro (produzido em 1960)", recorda.

"Após um curto período de tempo morando em Paul, Vila Velha, vim morar em Vitória, aqui ao lado de onde hoje está localizada a Comunidade Grega. Naquela época, não existia nada por aqui. Já pratiquei muito mergulho e pesquei aqui nesse Canal de Camburi, nas Três Ilhas e na Ilha do Frade, quando ainda nem existia a ponte que ligava o local ao continente. Vitória era uma cidade muito diferente, com uma população bem menor, mas com um povo muito acolhedor. Essa é uma das principais características do capixaba: é um povo alegre, descontraído, igual ao grego", complementa.

Mesmo residindo em um local com uma vista espetacular da cidade, Zavoudakis aponta um outro ponto de Vitória como o seu favorito. "Gosto muito de andar pelo centro da cidade, principalmente na Rua Sete. É um local boêmio, cheio de vida e com muitas coisas interessantes".

Apesar das inúmeras qualidades da cidade, o grego também faz ressalvas sobre melhorias. Com mais de 40 anos na capital, e tendo conhecido uma Vitória diferente da atual, ele consegue enxergar, bem próximo ao seu local preferido, pontos que poderiam melhorar.

"O Centro de Vitória tem muitos prédios abandonados que poderiam servir de moradia para centenas de famílias. Quando cheguei aqui, o Centro de Vitória, muito também por causa do porto, era um local vivo, cheio de gente e bastante movimentado. É triste ver hoje tantos locais vazios, sem gente", frisa.

Comunidade Grega

A maioria dos gregos que imigraram para o Brasil escolheram a cidade de São Paulo para morar. No entanto, o número de imigrantes e descendentes aqui no Espírito Santo também é representativo.

Em 1985, pouco mais de duas décadas após a chegada da maioria da população helênica, os gregos de Vitória inauguraram sua sede oficial: a Comunidade Helênica de Vitória, que tem um papel fundamental na inserção dos gregos que chegam a Vitória e, claro, no oferecimento de atividades culturais ligadas ao país para os capixabas.

O terreno onde está construída a sede foi doado por Konstantinos Vazzeos, grego que chegou ao Brasil em 1963 e pai da atual presidente da comunidade Ekaterini Vazeos.

Nascida no Brasil, mas tendo vivido por alguns anos na Grécia, Ekaterini define Vitória como “um Rio de Janeiro em miniatura, só que ainda mais bonito”, quando é questionada pelos seus amigos gregos.

“Acho Vitória uma cidade linda. Assim como a maioria dos capixabas, eu acho a vista da descida da Terceira Ponte bem bonita. Enquanto morava na Grécia, toda vez que vinha visitar Vitória e precisava voltar pra lá eu ficava pensando que ia ficar um bom tempo sem ver aquela cena linda e também a vista da descida do aeroporto, com a cidade toda iluminada, que eu achava fantástica”, recorda ela.

Apesar do local ser um marco para todos, o envelhecimento - e, consequentemente, a morte - dos primeiros gregos que chegaram aqui; e a difícil difusão da língua, inclusive entre os descendentes; dentre outros fatores, fez com que o ritmo das atividades desempenhadas no local diminuísse nos últimos anos.

“A gente já teve muitas exposições culturais para as escolas, roteiros para atender as pessoas de fora, fazíamos uma semana cultural, só que a gente via que muitas vezes nós estávamos tentando fazer as coisas, mas tínhamos muita dificuldade de promover”, frisa Ekaterini.

Do “paraquedas” ao restaurante

A relação de Kosmas Poulianitis com Vitória começou há quase 10 anos, em fevereiro de 2008, de uma maneira inusitada, como ele mesmo define. Formado em pedagogia, professor de grego e casado com uma brasileira, ele veio para o Brasil para trabalhar em um programa do Ministério da Educação da Grécia para divulgar a língua e cultura grega através das comunidades helênicas existentes no país.

Inicialmente, Kosmas ocuparia uma vaga de professor no Rio de Janeiro, no entanto, após algumas mudanças acabou sendo mandado para Vitória. “Eu não conhecia Vitória, até porque não era o local do meu destino inicialmente. Pesquisei um pouco da cidade no Google Maps e vim”, conta.

Por aqui, juntamente com os gregos mais atuantes da comunidade, ensinou a língua, música grega, teatro e um pouco da cultura para os descendente e simpatizantes que frequentavam o centro.

Em meados de 2010, por conta da crise financeira que atingiu fortemente a Grécia, o retorno ao país ficou mais difícil. Daí, surgiu a ideia de abrir um restaurante onde fica a comunidade helênica, que se tornou um local de extensão da própria comunidade.

Professor, músico e bastante ligado às questões culturais, tanto na Grécia quanto em Vitória, Kosmas reconhece as belezas da capital, mas faz algumas ressalvas: “Vitória é uma cidade linda, que quando você olha pela primeira vez, você fica apaixonado, porque tem uma geografia maravilhosa, com praias e belezas naturais. Só que depois de um tempo, vendo todos os dias, um pouco do encanto acaba, porque você percebe que falta conteúdo. Eu olho Vitória como uma mulher linda e extremamente maquiada, que depois de que tira a maquiagem perde um pouco da beleza. Esse conteúdo pode ser o quê? Pode ser cultura, mais serviços, melhores atendimentos, mais escolas, mais centros culturais, mais museus, menos crimes”.

O que eles disseram

A Prefeitura de Vitória foi procurada e explicou que durante o primeiro semestre de 2017 realizou ações voltadas para democratização do acesso ao livro, exposições e encontros com artistas, lançou editais de ocupação e atividades artísticas, dentre outros.

Além disso, através de um cronograma, realiza a restauração de monumentos e busca incentivar e transformar a cidade em uma galeria de arte a céu aberto, por meio do grafite.

Para a promoção do turismo na capital, acontece o programa Visitar Centro Histórico, que leva pessoas para conhecer os patrimônios da cidade.

Com relação aos prédios públicos e moradias populares no centro, a PMV não apresentou projetos e informou que a responsabilidade de manter os imóveis em boas condições de uso é dos proprietários.