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Qualidade da água na bacia do Rio Doce piora dois anos após tragédia em Mariana, diz estudo

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Qualidade da água na bacia do Rio Doce piora dois anos após tragédia em Mariana, diz estudo

A qualidade da água está ruim ou péssima em 88,9% dos 18 pontos de coleta analisados e que apenas dois pontos apresentam qualidade regular (11,1%)

A qualidade da água de rios que compõem a bacia do Rio Doce piorou dois anos após a maior tragédia ambiental do país, ocorrida com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Expedição realizada pela Fundação SOS Mata Atlântica, entre os dias 11 e 20 de outubro, revela que a qualidade da água está ruim ou péssima em 88,9% dos 18 pontos de coleta analisados e que apenas dois pontos apresentam qualidade regular (11,1%). 

Nos 18 pontos monitorados, a qualidade da água está imprópria para consumo humano e usos múltiplos, como pesca, irrigação e produção de alimentos. Apenas três pontos apresentam conformidade com o padrão definido na legislação brasileira para turbidez, um dos indicadores diretamente associado ao impacto da lama de rejeito de minérios.

Veja o estudo completo!

Em sete dos 16 pontos que apresentam qualidade de água péssima e ruim foi constatada ausência de vida aquática, como girinos, sapos e peixes. “Nesses locais, o espelho d’água estava repleto de insetos e pernilongos, vetor de graves problemas de saúde pública, como a dengue, zika, chicungunha e febre amarela”, observa Malu Ribeiro, especialista em Água da Fundação SOS Mata Atlântica responsável pela expedição.

A equipe da Fundação percorreu o rastro da lama por 733 km ao longo de todo o rio Doce, desde os seus formadores – os rios Gualaxo do Norte, Piranga e Carmo – a uma centena de afluentes que formam a bacia e banham 29 municípios e distritos dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Confira o comparativo entre as análises realizadas em novembro 2015, logo após o rompimento da barragem, e em 2016 e 2017:

Apesar de visualmente a água estar mais clara, Malu Ribeiro explica que o sedimento de rejeito de minério está presente em todo o leito do rio e, por ser muito fino, qualquer movimento das águas faz com que ele fique em suspensão, aumentando novamente a turbidez para índices impróprios.

“A seca extrema e o baixo volume das águas causaram uma concentração dos poluentes, o que fez com que a poluição, apesar de imperceptível a olho nu, esteja em concentração bem maior do que no ano passado”, disse Malu.

Apesar de estarem longe do cenário ideal, nove pontos de coleta apresentaram sinais de vida aquática. Eles estão localizados onde existem fragmentos de mata nativa ou que contam com áreas de preservação permanente. “Esses locais foram menos afetados com o impacto da lama. Mesmo com tamanha tragédia, é possível notar alevinos, conchas, girinos e poucos peixes, sobretudo nos pontos próximos a afluentes de maior volume”, diz Malu.

A elevada turbidez, o baixo volume dos rios, o excesso de nutrientes em decomposição lançados pelo esgoto sem tratamento e as altas temperaturas reduziram os índices de oxigênio dissolvido. “Para a recuperação da qualidade da água, é essencial que sejam adotadas medidas efetivas de restauração florestal com espécies nativas, de revitalização da bacia e a ampliação dos serviços de saneamento básico e ambiental nos municípios afetados”, acrescenta Malu.

Saúde pública

A água do rio Doce continua fora dos padrões legais para um rio de classe 2 e apresenta concentrações elevadas de sólidos em suspensão e metais pesados, como manganês, cobre, alumínio e ferro, em diferentes trechos monitorados ao longo da expedição.

Apenas dois pontos de coleta, localizados em Perpétuo Socorro e Governador Valadares, ambos no rio Doce, não apresentam índices de cobre na água. Nos outros 16 pontos monitorados, a concentração desse metal está acima do permitido. O consumo de pequenas quantidades desse elemento pode provocar náuseas e vômitos. Quando ingerido em grandes quantidades, pode afetar os rins, inibir a produção de urina e causar anemia devido à destruição de glóbulos vermelhos.

Cinco dos pontos analisados apresentam concentração de manganês acima dos índices permitidos. A ingestão desse metal pode trazer rigidez muscular, tremores das mãos e fraqueza. Pesquisas realizadas em animais apontam que o excesso desse componente no organismo provoca alterações no sistema nervoso central e pode levar à impotência.

Metodologia

A Fundação SOS Mata Atlântica apresenta neste estudo o retrato da qualidade da água na bacia hidrográfica do rio Doce e a evolução dos Índices de Qualidade da Água (IQA) apurados nos anos de 2015, 2016 e 2017, por meio do projeto Observando os Rios, com parceria da Universidade de São Caetano do Sul – núcleo de pesquisa IPH (Índices de Poluição Hídrica).

Para a medição dos parâmetros definidos no IQA, a SOS Mata Atlântica desenvolveu um kit de análise que utiliza reagentes colorimétricos que permitem realizar as coletas e análises dos indicadores de qualidade da água em campo por voluntários do Observando os Rios, projeto que tem patrocínio das empresas Ypê e Coca-Cola Brasil.

Em virtude das especificidades do dano provocado pelo rompimento da barragem, nas três expedições técnicas de monitoramento, em 2015, 2016 e 2017, foram utilizados equipamentos especiais, sondas eletrônicas e protocolos específicos para as coletas e medições em campo e para as amostras analisadas em laboratório, incluídos os índices de Condutividade Elétrica do Meio Aquático, Total de Sólidos Dissolvidos (TDS) , Dureza, Cobre (Cu), Alumínio (Al), Magnésio (Mg2+), Manganês (Mn2+) , Ferro (Fe3+) e microbiológicos.

Os dados do IQA, as análises microbiológicas e de metais pesados reunidos no relatório foram elaborados com base na legislação vigente e em seus respectivos protocolos.

O que diz a Renova

Por meio de nota, a Fundação Renova disse que os monitoramentos realizados pela fundação ao longo da Bacia do Rio Doce são acompanhados e fiscalizados pelos órgãos ambientais. "A Bacia do Rio Doce é a mais monitorada do Brasil. Os dados são enviados em tempo real e em relatórios trimestrais aos órgãos ambientais, dentro do Programa de Monitoramento Quali-quantitativo Sistemático (PMQQS) de água e sedimentos", disse.

"Participam do programa a Agência Nacional de Águas (ANA), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Espírito Santo (IEMA), Agência Estadual de Recursos Hídricos (AGERH), Instituto Mineiro de Gestão de Águas (IGAM) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)", completou.

Para atender ao programa, a fundação diz que há 92 pontos de coleta de dados, incluindo 22 estações automáticas, que realizam o monitoramento em tempo real. Esse conjunto avalia 80 indicadores – turbidez, vazão, presença de metais, coliformes, entre outros.

"De acordo com o último relatório do IGAM, de setembro, os dados de turbidez no Rio Doce se mantêm abaixo do limite legal, que é de 100 ntu (unidades nefelométricas de turbidez), na maioria das estações de coleta de dados. A água do Rio Doce está apta para consumo, desde que tratada pelas concessionárias responsáveis (SAAE, Sanear e Copasa), e os parâmetros são semelhantes ao registrado antes do rompimento da barragem de Fundão", finaliza a nota.