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Raio-x: delegado, perito e bombeiros explicam passo a passo da morte dos irmãos carbonizados

Morte irmãos carbonizados

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Polícia

Raio-x: delegado, perito e bombeiros explicam passo a passo da morte dos irmãos carbonizados

Após cerca de 30 dias de investigação, a Polícia Civil quebrou o silêncio e anunciou os resultados obtidos sobre o caso que chocou o Espírito Santo

Iures Wagmaker

Redação Folha Vitória

Na manhã desta quarta-feira (23) a Polícia Civil informou que, após cerca de 30 dias de investigação, chegou-se a conclusão de que o pastor Georgeval Alves abusou sexualmente, agrediu e matou Joaquim Alves Sales, de 3 anos, e Kauan Sales Butkovsky, de 6.

As informações foram anunciadas durante entrevista coletiva, realizada na sede da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp). Antes de passar a palavra para os responsáveis pela investigação, o secretário de Segurança Pública, Nylton Rodrigues, deu a seguinte declaração: "As investigações e os laudos são esclarecedores, definitivos e inegáveis. O inquérito será encaminhado ao Ministério Público, ao poder judiciário para que a Justiça seja aplicada".

Confira o que foi dito pelos representantes da Polícia Civil, da perícia criminal e do Corpo de Bombeiros:

De acordo com o chefe da Regional de Linhares, André Jaretta, as investigações apontaram que as crianças morreram carbonizadas e que o fogo foi ateado no quarto onde elas estavam ainda vivas. 

Abuso sexual

"O conjunto nos demonstra que naquela madrugada, o investigado inicialmente molestou as duas crianças, tanto o filho biológico, quanto o enteado, mantendo ato libidinoso, consistente em coito anal. Isso é demonstrado tecnicamente pelo encontro de uma substância denominada 'PSA' que é contida no sêmen humano. Essa substância foi encontrada no orifício anal das duas vítimas. Não seria possível estar naquele local se não por um agente externo".

Violência física

"Feito isso e com o propósito de ocultar o ato perverso praticado, ele praticou violência física contra as crianças. Isso é comprovado pelo vestígio de sangue no box do banheiro e o exame de DNA comprovou ser do Joaquim, seu filho biológico".

Incêndio

"Com as duas vítimas ainda vivas, porém desacordadas, o investigado as levou até o quarto das crianças, as colocou na cama e, utilizando-se de um agente acelerador, um líquido inflamável derivado do petróleo, um combustível, ateou fogo nas crianças e no local, naquele quarto. Fazendo com que elas fossem mortas pela ação do fogo, o calor".

Causa da morte

"Elas morreram pela carbonização. O agente acelerador, o combustível, foi comprovado pelos exames periciais, assim como o fato de que elas morreram carbonizadas também foram comprovados pelo exame. Isso porque elas não tinham fuligem, ambas as crianças, na traqueia, bem como apresentavam uma substância no sangue que demonstravam que elas ainda respiravam quando começou o incêndio. Porém, esse incêndio foi rápido e intenso, de forma que todo o contexto vem que uma perícia corrobora a outra."

Omissão de socorro

"Feito isso, o incêndio e a carbonização das crianças estando avançado, o investigado foi para a parte externa da casa e, sem que abrisse o portão, ficou andando de um lado para o outro, até que transeuntes, vizinhos, vissem aquele cenário, parassem e por conta própria prestassem auxílio, arrombando o portão e acionando os Bombeiros para o combate ao incêndio. Porém, quando os populares chegaram, já não havia mais condições de oferecer qualquer ajuda às crianças."

Promoção pública

"Posteriormente a isso, todos nós presenciamos que o investigado tentou se promover publicamente, tentando passar uma personalidade inversa daquilo que ele demonstrou."

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Em uma explicação mais técnica das investigações, o perito da Polícia Civil Fabrício Pelição também detalhou cada passo para chegar ao ponto atual das investigações.

Desafio

"Posso dizer que é um caso que, certamente, vai ficar marcado para a história do nosso Estado. Para a perícia foi um desafio particular. A perícia trabalha com a materialização de fatos concretos de coletas que tenham sido feitas no local, nas vítimas ou nos acusados. Dada a destruição do local, é fácil de imaginar que isso já se torna um trabalho mais difícil de ser realizado. A forma com que a perícia atua de forma alternada, onde mais de 25 peritos atuaram diretamente no caso. Peritos de três departamentos diferentes trabalharam nesses 30 dias de forma muito intensa, tentando buscar a materialização de que essas suspeitas que poderiam ocorrer."

Perícias

"Os peritos que foram ao local fizeram coletas de materiais suspeitos, foi onde se determinou a presença de sangue no box da casa. Sangue esse que foi levado ao laboratório de DNA criminal, sido posteriormente identificado como sendo do Joaquim. As amostras foram encaminhadas para os laboratórios da Polícia Civil. Estes departamentos realizaram mais de 20 perícias."

Crianças não foram dopadas

"A Toxicologia iniciou um trabalho para verificar se estas vítimas poderiam ter sido dopadas ou sedadas, visto que elas não tiveram nenhuma reação ao incêndio que se formou. Não foi encontrado nenhum produto de dopping, nenhum medicamento que mostrasse sedação e as investigações continuaram."

Fumaça não foi a responsável pela morte das crianças

"Pesquisamos substâncias que aparecem em vítimas de incêndio, que inalam fumaça. As substâncias foram encontradas no sangue das duas crianças, porém em níveis insuficientes para causar a morte das mesmas. Não foram níveis nem suficientes para causar a inconsciência das mesmas. Elas não reagiram a este incêndio, tendo sido encontrados os corpos das mesmas no mesmo local onde estavam as camas. Um indício que já contribuiu muito para a investigação da força tarefa.

Crianças foram estupradas

Finalmente foi pesquisado a hipótese de abuso sexual, através da utilização de uma técnica que procura substância, uma proteína que faz parte do sêmen humano, exclusivamente. Ela se chama PSA, produzida pela próstata, e foi encontrada na cavidade anal de ambas as crianças."

Corpos estavam irreconhecíveis

"O laboratório de DNA criminal, além da identificação do sangue do box como sendo do Joaquim, trabalhou também na identificação dos corpos das crianças, que estavam irreconhecíveis. Não era possível identificar qual dos corpos pertencia a qual criança."

Substâncias acelerantes usadas no incêndio

"O Laboratório de Química realizou a análise da pesquisa dos acelerantes, combustíveis, em amostras coletada pela perícia dos bombeiros e outras amostras nos corpos. Essa análise identificou positividade para substâncias inflamáveis, classificadas como derivadas do petróleo em duas dessas amostras, indicando que sim, foi feito o uso de algum tipo de combustível no local que também vai ao encontro dos achados no local, com a tamanha destruição encontrada. Como relatou, os fatos e as perícias foram se encaixando por si só."

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Já o tenente coronel Ferrari, do Corpo de Bombeiros, explicou em detalhes todos os passos do trabalho realizado pela perícia para a elucidação dos mistérios que cercavam este crime

Versão incompatível

"Durante nossa investigação, no primeiro contato que tivemos com o Georgeval, que nos apresentou a versão dele, foi na segunda-feira, dia 23. A versão dele já se mostrou muito incompatível com os dados recolhidos do incêndio. Isso já nos alertou para a possibilidade de o incêndio não ter sido acidental. De qualquer forma, a possibilidade de ação pessoal a gente precisaria investigar. Não podemos descartar hipóteses simplesmente achando. Incêndio é complicado, pois é algo que a gente precisa investigar, mas quando ele acontece, ele destrói as próprias evidências. E esse caso ganhou complexidade pela proporção do incêndio em si e pela repercussão que foi acontecendo."

Vítimas não fugiram do local do incêndio

"Uma cooperação e a parceria com a Polícia Civil permitiram que a gente tivesse uma riqueza de dados muito grande, que permitiu a gente a trabalhar e conseguir chegar a uma conclusão acerca do incêndio. Logo na primeira avaliação da cena, nós presenciamos uma destruição muito grande do cômodo onde estavam as crianças. Era uma beliche com uma cama auxiliar, então eram três nichos de cama e três colchões e os dois estrados de cima já não existiam. Já tinham sido desintegrados no incêndio. A gente achou vestígios apenas do estrado de baixo. A escrivaninha do outro lado do cômodo também já estavam desintegrada, a porta do quarto já não existia. Essa destruição toda dificultou muito. Além dessa destruição muito grande que a gente encontrou na cena, a primeira investigação que fizemos no local foi que as vítimas foram encontradas no foco inicial, na região onde o fogo se desenvolveu com mais intensidade pelo combustível que liberaria mais energia, que eram os três colchões. Elas foram encontradas ali, exatamente. Em incêndio é comum que a vítima morra tentando fugir do foco inicial, da zona onde o incêndio se desenvolveu."

Fogo não começou no ar condicionado

"O senhor Georgeval apresentou uma versão de que o fogo teria começado no ar condicionado, tanto que o ar condicionado do outro cômodo também derreteu, mas foi da fumaça quente. Não havia sinal de curto que afetou os dois aparelhos. As crianças estarem no local do incêndio e não terem fugido, uma explicação seria elas teriam respirado fumaça demais e intoxicado antes de morrerem queimadas. Só que isso era incompatível com a versão dele de que elas teriam chamado ‘pai, pai, pai’ e ele tentou salvar. Se elas chamavam pelo pai conscientes, porque elas estariam no local que queimou mais intensamente? Isso já nos alertou. O desenvolvimento normal de um incêndio dentro de um compartimento, ele depende muito da ventilação e o que nos consta a versão dele e as evidências que a gente tem é de porta e janela do cômodo estavam fechados. O fogo é uma reação com o oxigênio, ele acontece com mais intensidade com quanto mais oxigênio tiver. O desenvolvimento de um incêndio dentro de um quarto depende da oferta do oxigênio. No caso de porta e janela fechados, ele teria uma limitação para se desenvolver muito rápido. A tendência é que ele ficasse encubado até que a porta e ou a janela fossem abertas para oferecer oxigênio e se generalizar."

Passo-a-passo

"O que a gente viu pelos dados que a gente coletou com as testemunhas que nós ouvimos, que a Polícia Civil ouviu, com as imagens de câmeras de segurança que a PC recuperou e que nos passou foi o seguinte: Por volta de 2h20, esse é um tempo estimado, a porta do quarto foi aberta. Isso é estimado com base no tempo rígido de que 2h22 as imagens mostram fumaça saindo da casa; A gente estima 2h20 que é o tempo pra fumaça sair do quarto, inundar o corredor, os cômodos e sair. Então teve ventilação no incêndio, que provocaria ele se desenvolver com mais intensidade; Às 2h23 chegou o primeiro carro, que depois foi ao quartel acionar a corporação; Às 2h24, dois minutos depois da fumaça, chegou o carro com os rapazes que entraram na casa para tentar ajudar. Esses rapazes não conseguiram entrar no cômodo, então era o calor. Depois de três tentativas de entrar no cômodo sinistrado e não conseguirem, um deles ouviu a janela se quebrar. Depois que a janela se quebra, melhora ainda mais a ventilação do cômodo, que dá espaço para a fumaça sair e o ar entrar, e o cômodo se queima mais intensamente. Às 2h28 aparece nas imagens da câmera, o incêndio se generalizando no quarto e 2h30, dois minutos depois apenas, a guarnição dos bombeiros chega. Dois minutos depois do flash over, que é quando começa a acontecer a destruição intensa do cômodo, os bombeiros chegaram. Só que quando a guarnição chegou, já não havia mais cama, já não havia mais escrivaninha. O fogo estava apenas nos armários e isso já um dado muito importante, porque tem que ter acontecido um desenvolvimento do incêndio para que tenha provocado a destruição do combustível antes da ventilação, pois após a ventilação estes dois minutos não seriam suficientes."

Crianças morreram rapidamente

"Nós somamos isso aos dados que o exame cadavérico nos forneceu, de que as crianças, por conta da fuligem nas vias aéreas superiores, estavam vivas na hora do incêndio. O exame ainda nos mostra que elas morreram em decorrência da ação do calor e das chamas. Então elas morreram em decorrência das chamas e não da intoxicação, que também mata muito em incêndio. Outro índice é que a carboxihemoglobina, detectada no sangue, ela se forma com a inalação do monóxido de carbono produzido pela queima incompleta. E a saturação de carboxihemoglobina no sangue era baixa, ela não indicava um índice capaz sequer de provocar uma inconsciência ou incapacidade de reação. Esse índice baixo, em todos os artigos que a gente pesquisou e leu, só é possível estar tão baixo se o incêndio se desenvolveu de forma tão rápida, que as crianças morreram tão rápido, que a carboxihemoglobina não subiu no sangue. Então as crianças estavam vivas e morreram rapidamente. Foram expostas ao fogo em muito pouco tempo."

Não foi um incêndio acidental

"As hipóteses para explicar esse incêndio precisam ser compatíveis com que as crianças morreram muito rápido e que a destruição do cômodo aconteceu tão rápido, e antes da ventilação. A hipótese de acidente, que o senhor Georgeval fornece de que o incêndio começou no ar condicionado é incompatível com isso tudo. Se começou no ar condicionado e passado para a cama, não queimaria tão rápido ao ponto de as crianças morrerem antes da carboxihemoglobina subir e não destruiria tanto o cômodo. Inclusive, os bombeiros viram que o mobiliário do outro lado do cômodo, que está fora do caminho da ventilação, por onde a energia passa mais, de forma natural antes de acontecer o flash over, o que a guarnição comprova que aconteceu antes. Então a hipótese de acidente não se sustenta."

Simulações computacionais

"Nós tentamos reproduzir no computador a simulação deste incêndio acontecendo a partir do ar condicionado. Colocamos o ar condicionado queimando com a energia absurda; Colocamos o colchão, na simulação computacional no modelo matemático, queimando de forma mais facilitada e acelerada;. Reduzimos o ponto de ignição dos outros combustíveis no quarto para que eles entrassem em ignição mais facilmente; Colocamos a quebra das janelas sendo mais cedo do que a gente sabe que foi para ventilar o incêndio, para dar o incêndio acidental uma dinâmica mais rápida; E ainda assim a simulação computacional mostrou que é impossível que esse incêndio acidental tenha acontecido de forma tão rápida para matar as crianças antes da carboxihemoglobina subir e antes dos combustíveis se degradarem daquela forma. Então a hipótese do acidente, a hipótese de que o incêndio começou no ar condicionado está absolutamente descartada e é impossível que tenha sido acidental."

Dados dão certeza da conclusão

"A única hipótese plausível é de uma ação pessoal com o uso de acelerante para provocar essa evolução tão rápida e anormal de um incêndio, o que é comprovado e compatível com o exame laboratorial feito pela perícia da Polícia Civil, pelas amostras que a gente coletou, e que comprovam, demonstram, detectam a presença de combustível acelerante derivado de petróleo. Essa amostra que deu positivo foram coletadas exatamente no local onde as crianças foram encontradas. Outras amostras não foram conclusivas, mas também não afastam que ele usou acelerante em mais partes do cômodo. E assim fica concluído com a certeza que não é tão comum a gente chegar em uma investigação de incêndio com tanta certeza, mas esse incêndio, pela riqueza dos dados que foram ofertados pela guarnição, pelas testemunhas, pelas perícias, pelos depoimentos, pelas perguntas feitas pelos delegados investigadores às pessoas que prestaram depoimento, a gente pode afirmar com certeza que foi uma ação pessoal deliberada com o uso de acelerante que provocou esse incêndio que se desenvolveu da maneira que se desenvolveu".